14/10/2008
Helvetia agrada no quesito artístico, mas desaponta na estrutura.
Sábado, dia 11 de outubro de 2008 aconteceu a terceira edição do Helvetia Music Festival, situado no campo de pólo Helvetia em Indaiatuba. Após uma viagem conturbada, alguns mil reais pagos nos pedágios e uma estradinha de terra estupidamente esburacada (risos), conseguimos chegar à porta do estacionamento do evento, sem filas nem qualquer problema para entrar.
A entrada principal também estava bem sossegada, com um atendimento bem rápido na recepção, sem filas nem tumulto. A segurança na entrada estava ótima, a revista era muito bem feita, porém um pouquinho demorada na fila das mulheres (que esvaziavam a bolsa inteira), mas nada que incomodasse. Ficamos um pouco perdidos ao entrar. Na entrada não entregaram nenhum tipo de line-up impresso, nem nada do gênero. Ou trazia já de casa, ou tinha tudo na cabeça, ou se baseava nos banners que ficavam ao lado das tendas (no palco principal não havia nenhum banner de line-up). Demos algumas voltas pra conhecer o local, visitamos todas as tendas e o palco principal. 
A estrutura do evento não ganhou muito empenho e planejamento da produção. A disposição das tendas estava muito ruim, todas apinhadas no centro do festival, os banheiros químicos estavam completamente escuros e o staff era bem desinformado (nenhuma pessoa soube informar aonde era a área de imprensa).
O soundsystem do palco estava muito desregulado, com os graves muito altos e os agudos distorcidos, ambos sem nitidez. Para conseguir uma fidelidade sonora maior, nós tivemos que nos afastar uma boa distância do palco, mas nisso o som do camarote do Sirena se misturava com o som do palco. Então entre não ouvir uma música direito, e ouvir duas menos direito ainda, fomos pra frente e ficamos no meio de um oceano de graves embolados.
Apesar das tendas estarem mal posicionadas, contavam com uma configuração legal. As laterais eram abertas, então não havia aquele empurra-empurra desesperado pra entrar e sair da tenda. O som estava bom, bem definido e em um volume suportável, com uma iluminação bem feita e com bastante espaço para circulação.
Os bares e caixas não tinham filas, ou quando tinham, não passava de 3 pessoas, pois o atendimento era bem ágil e eficaz. No comes-e-bebes o maior “tumulto” que ocorreu foram 15 pessoas pedindo pastel ao mesmo tempo, ou seja, nada nem perto de grave.
Markus Schulz
Uma das atrações mais esperadas do palco principal era o alemão Markus Schulz, que entrou com atraso, cerca de 23:15hs, atraindo um grande número de pessoas. Começou seu set com um progressive trance bem leve e com pouco groove, predominante na primeira meia-hora da apresentação. Confesso que não fui muito cativado pelo som nesse período. Não empolgava, não pegava o embalo e não tinha muita vontade de dançar, ficando naquele balanço de corpo por inércia.
Mas nem tudo estava perdido! Schulz foi muito carismático, atendendo a pedidos de músicas e interagindo legal com a pista. Fez o público presente vibrar com remakes de faixas consagradas como “Rank 1 – Airwave”, “4 Strings – Take me away” e “Eurythmics – Sweet Dreams”, sem contar o mashup de “Ronski Speed – The space we are” com “Rex Mundi – Perspective”, fazendo a galera levantar os braços e cantar junto. Os hitaços “Jochen Miller – Lost Connection” e “Ali Wilson – Shake Down”, também foram highlights do set, sendo “Shake Down” tocada três vezes durante o festival.
A progressão sonora foi perfeitamente bem desenvolvida, indo do progressive ao tech-trance de maneira bem sutil, terminando o set com uma pegada forte e, mesmo saindo 15 minutos mais cedo, agradou muito quem estava por lá.
Marco V
Marco V foi outro que surpreendentemente agradou no quesito “Trance” também. Começou o set com um som bem grooveado, oras rasgado e tendendo ao electro, oras mais funky e puxado ao tech-house, mas não muito atraente pra quem estava de passagem pela tenda. No decorrer do set a pegada aumentou, os basslines ficaram mais agressivos e o groove mais forte, atraindo mais gente à tenda e fazendo com que quem estivesse por lá se acabasse de dançar.
Surpreendeu o público ao tocar novas versões de suas produções consagradas como “Simulated”, “Automanual”, “False Light” e “More than a life away”, com direito a muitos gritos, mãos pro alto e tudo mais. O final de seu set foi mais voltado ao trance e ao techno, mandando faixas como “Timmy & Tommy – Full Tiltin (J.O.Center Remix)”, “Ali Wilson – Shake Down” e um remix insano de “Eurythmics – Sweet Dreams”.
Foi um set muito coeso e com uma progressão muito bem feita. Marco demonstrou uma técnica de mixagem espetacular nas viradas, tudo milimetricamente preciso e perfeito. Ao meu ver, um excelente set, só para os mais xiitas botarem defeito.
Judge Jules
Judge Jules, residente da poderosa Radio 1, também bateu cartão no line up. Sua entrada foi antecipada pegando muita gente de calças curtas ao ver que a dupla “Carlo Dall’anese & Fabio Castro” não estava mais ocupando os decks.
Jules fez um set muito enérgico, animado e forte, reinando na playlist seu já conhecido tech-trance. Com um carisma fenomenal, interagiu bastante com a pista, aceitando pedidos e surpreendendo o público com uns mashups e faixas inesperadas, como “Softcell vs. Southside Spinners – Tainted Luvstruk”, “Delirium vs. Gareth Emery – This is Silence”, uma versão de “Justice – Stress” muito parecida com a do Live Act da dupla francesa, um remake de “Seven Nation Army” do “White Stripes” e até mesmo a breguíssima “Survivor – Eye of the Tiger” em uma versão até que interessante, mas bem estranha, com gente encarnando o “Rocky Balboa” e tudo mais.
Tocou pela terceira vez na noite “Shake Down”, tirando alguns bicos e caras feias de quem já estava saturado da música, além da pedrada chamada “Marc Marberg with Kyau & Albert - Orange Bill (Stoneface & Terminal with Marc Marberg Remix)”.
Uma apresentação bem consistente, interessante e original, agradando a todos. Só não foi melhor por conta da chuva, que incomodou na parte final de sua apresentação, obrigando muitos a se abrigarem nos bares e tendas. A pista esvaziou muito, sobrando alguns remanescentes que não estavam muito ligados no fato de ficarem ensopados naquele calor absurdo de 12°C. Aliás, pra vocês sentirem o drama do calor, tinha menina de biquini e marmanjo sem camisa, então refresco nunca é demais, certo?
Mas incômodos à parte, há de se chamar a atenção pela maneira pouco ortodoxa que a organização arrumou para encerrar as atividades do palco, cortando cruamente o som.
DTC
Última atração da tenda “Amnesia”, a dupla campineira DTC teve a responsabilidade de segurar a pista após uma longa noite de festa. Os DJs Dorph e TedCorr apresentaram uma nova proposta à pista nesta edição, levando consigo a VJ KK, que trabalhou em conjunto com eles nesse novo projeto, realizando a sintonia entre áudio e vídeo.
De acordo com a dupla, o set seria composto de “emoção, sentimento e energia”, palavras comprovadas durante a apresentação, que se estendeu das 6 às 9 da manhã. Com uma playlist bem diversificada, o set foi um mix perfeito de progressive, uplifting e tech-trance, com mixagens perfeitas e efeitos muitíssimo bem aplicados, sem contar o carisma cativante deles que envolvia a todos na tenda.
O público vibrou com faixas como “Orjan Nielsen – La Guitarra”, “Heatbeat – Geek Love”, “Spunuldrich – The Walrus” e a clássica “Faithless – Insomnia 2008”, dançando e pulando bastante, mesmo com a bateria chegando ao final. Com uma boa pegada e muito groove, a dupla segurou firme a pista, mantendo a tenda cheia até o final do set. Encerraram o festival com chave de ouro, após uma apresentação bombástica que merece destaque. Simplesmente excelente.
O saldo da festa foi positivo, mesmo com a estrutura devendo mais planejamento e com alguns problemas sérios de atrasos e adiantamentos no line-up. As atrações mandaram bem, a organização estava razoável, sem filas na entrada e no bar, sem brigas, tudo com uma segurança impecável. Até mesmo a chuva, grande vilã da noite, não foi capaz de ofuscar essa bela festa. Pra quem procurava diversão e boa música, o festival foi um prato cheio, sem dúvida alguma.
Fotos: Renata Guedes Lima e Tati Oldfield |