Faz tempo que eu não saio de casa à 1 da tarde pra ir num club. Mas foi isso mesmo, a festa começou às 14hs e terminou depois das 22hs. Chegamos na New Oxford Street e começamos a procurar o club a pé... e lá estava o The End, escondido numa ruazinha minúscula, cheia de ravers coloridos, freaks e fantasiados. Ao lado do club, há um bar chamado “Goodbye Baby...”. Coincidência???
Os ingressos estavam esgotados, e mesmo assim o pessoal continuava na fila, esperando por uma chance de entrar (caso alguém vá embora cedo). Já individuei o Ed Real de longe e agilizei nossa entrada. Enquanto eu descia pelas escadas, o “boom boom” ia se intensificando (putz, pior que esqueci os meus ear plugs!). “Ué, tá devagar pra ser Riot, hein!”... mas descobri que esse som vinha do bar, onde se apresentavam DJs de house e breaks. Não vou falar muito do som do bar, porque sinceramente passei por lá poucas vezes, mas posso dizer que estava muito legal e animado e de bom gosto.
O The End é um club bem underground, por alguns aspectos ele lembra vagamente a segunda pista do Vegas, ou até o Lov.e. É um club de médio porte, onde você se encontra cercado pela música o tempo inteiro. O charme dele fica na pista principal, que parecem duas turbinas de avião, uma do lado da outra. A cabine fica bem no centro, em formato de ovo: o DJ fica cercado pelo público a 360º! O engraçado é que bem no centro da cabine (no meio dos decks) tem uma coluna de ferro, que fica bem na cara do DJ, enquanto ele mixa. Achei estranho, mas depois me dei conta que isso obriga o DJ a ficar agitando o pessoal pelos outros lados da cabine, evitando que o público se concentre todo na frente (como sempre acontece). Não entendeu? Dá uma olhada no mapinha...
O soundsystem não é dos mais limpos e cristalinos, mas ele é esmagador, alto e forte: quatro colunas de caixas com subs, médios e tweeters, duas delas no fundo da pista, e duas na frente, apontadas umas pras outras... e é dessa forma que a imagem estéreo é dividida. Um sistema bem estranho, mas funcionava muito bem.
Agora vamos voltar à festa. A Riot, além de selo, é também uma das poucas festas oficiais (tirando as squats) de extreme dance music que sobraram em Londres (a maioria se encontra no norte da Inglaterra, pros lados da Escócia). Hard dance, hard house, hard trance, tech trance acelerado e até acid e hard techno, fazem parte do repertório. O público é composto, em grande parte, por ravers saudosistas que foram deixados como orfãos, no começo dos anos 90 (com o fim da era rave européia). São clubbers coloridos que só querem se acabar de dançar, e conhecem muito bem o que está tocando.
Enfim, cheguei no meio do set do Ali Wilson Vs. Matt Smallwood, que estavam tocando muitos clássicos do tech trance e techno, como os remixes de Café del Mar e Loops N’ Things de Marco V e bombas de acid techno como Guy McAffer – Rawremix 01 (um clássico, para quem frequentou a SP Groove no Brasil). O BPM já estava nos seus 140, e a festa estava apenas começando!
O próximo foi Alex Kidd, um dos DJs mais premiados da cena hard dance. O seu set, na falta de termos melhores, foi um atentado terrorista: peso, peso e mais peso, kicks distorcidos, grooves retos e martelantes, pitadas de hard trance, elementos de hardstyle, batidas quadradas do hard techno. Não costumo gostar de sons tão pesados, mas eu não pude evitar de me deixar envolver pelo carisma e pela técnica dele. Rolou até a versão de Dark By Design de Music da Madonna. Foi um estupro auditivo, mas foi um dos meus sets favoritos da noite.
A seguir, aparece a primeira DJéia da noite: Anne Savage, que tocou um set focado no hard house clássico, com hoovers gritantes que envolviam toda a pista, e você não podia fazer nada além de berrar desesperadamente! O BPM já tinha ultrapassado a marca dos 145, e continuava subindo!
Logo, foi a vez de Scott Attrill (aka Vinylgroover), que é mais um ícone do hard dance britânico, e é conhecido por proporcionar grooves mais tech, dentro do hard house. Ele começou o set com muitas faixas novas (incluindo o novo remix de BK – Revolution), misturando até algumas pitadas de electro, até chegar em clássicos como Tony De Vit – The Dawn e um clássico do old-skool hardcore de 1991, cujo o nome está na ponta da língua, mas não estou conseguindo lembrar de jeito nenhum! :S Para a minha surpresa, ele também tocou a versão hype do Tiësto de Adagio For Strings... foi bem engraçado ouvir ela a 150 BPM!
Finalmente, chegou a hora da mulher mais popular entre os DJs do mundo tocar (segundo o Top 100 da DJ Mag). Ela mesmo, a Lisa Lashes. Eu sou um pouco suspeito para comentar, pois eu tenho um quedinha básica de ginásio por ela... hehehe! Pra mim não há nada mais sexy que uma mulher fazendo o que eu mais amo na vida: tocando. Ela tem esse charme, esse carisma... isso sem contar que a técnica e o repertório dela são absurdos! Ela passa uma energia fortissima para a pista, com todo o peso do hard dance, mas sem comprometer sua feminilidade. Ela já abriu o set com o mega-clássico Activ-8 do Altern-8, e foi com tudo no hard dance, com direito a vários classicos remixados tipo Veracocha – Carte Blanche e Lost Tribe – Gamemaster. Eu acho que vi um laptop gravando o set dela... com certeza, se foi o caso, ele provavelmente vai cair na internet, então fiquem de olho, pois vale a pena!
Para fechar a noite, Ed Real começa um set furiosissimo de hard dance, do qual eu destaco a faixa Hostile de Paul Glazby, onde no breakdown uma voz fala com a multidão: “Vocês sabem o que os experts estão dizendo pra vocês? Que a música pesada está morta e já se foi. Me façam um favor: dêem uma volta e olhem uns pros outros, dêem uma volta e olhem pra todo esse monte de pessoas que estão aqui...” (“You know what the experts are telling you? That heavy music is dead and gone. You all do me a favour: you all turn around and look at each other right now, you all turn around and look at all the muthafuckin’ people here...”). Nessa hora rolou praticamente uma revolução!
Em seguida, Ben Keen (também conhecido como BK) junto ao Andy Farley, finalizaram a festa em back2back, mandando vários clássicos como Murder Was The Bass de DK8 e, novamente, Loops N’ Things do Marco V e Rawremix 01 do Guy McAffer. Como se não bastasse, tocou até um remix exclusivo de The End, do The Doors, que o BK fez especialmente para a festa.
Infelizmente, e contra a minha vontade, tive que ir embora antes do final. Então bati um papo rápido com a Lisa, nos despedimos da galera da Riot e fomos embora. Foi uma festa muito divertida, com um repertório pesado e acelerado, mas muito bom e divertido! A vibe da pista foi algo que eu não via há muito tempo: todos sabiam o que estava rolando, todo o mundo dançando horrores com um sorrisão na cara e gritando a cada virada!
Enfim, foi a minha primeira vez na Riot, e a minha primeira vez no The End, mas estou profundamente triste que essa também seja a última.