Movimentos Migratórios
por Rone Amabile

02/09/2009

Não é segredo que eu adoro fazer comparações entre futebol e música, isso não se deve pelo meu grande apreço pelos dois itens citados, a razão pura e simples é, enquanto a cada dia mais uma gama maior de pessoas enxerga essas duas manifestações culturais como business, eu continuo vendo como manifestação artística, ou pura e simplesmente arte.

Já ouviu o ditado de que jogador de futebol é igual puta? Aposto que sim, e há pouco tempo tive aquele momento iluminado (ok, nem tanto) onde não notei diferença alguma entre o comportamento de jogadores de futebol e de uma grande parte dos DJs de hoje em dia.

Com algumas diferenças, mas com muitas semelhanças, podemos dizer que o respeito pela arte que projeta acaba ficando em segundo plano. Não vou perder seu tempo explicando analogia por analogia, pois creio eu que ficará bem claro os pontos onde se assemelham.

Você consegue imaginar U2 tocando forró? Metallica tocando folk? Ou Pavarotti (rip) sendo M.C. em campeonato de hip hop? Difícil, não é? Tudo isso devido a uma palavrinha que estamos muito acostumados a ouvir ou ler citações a respeito no meio eletrônico, o tal conceito. Esses e muitos outros tem em comum apenas uma coisa, que no fim acaba sendo tudo, eles acreditam no seu trabalho, na sua arte, e batalham pelo melhor dela, seja onde for.

Seria muito estranho ver grandes artistas correndo de um lado para o outro a cada semestre, ano, ou o tempo que leve entre cada modismo cultural que aparece com maior volúpia a cada ano. Embora do ponto de vista financeiro e mercadológico fosse algo totalmente compreensível.

Por que então isso acontece a todo momento com os DJs?

Não estou falando do direito inalienável de cada artista em determinado momento resolver se redefinir, mudar de rumo, pois isso é algo muito comum ao ser humano, essa necessidade de mudar e se reinventar. Mas isso é a ponta do iceberg, onde apenas uma pequena parte pode ser vista e ouvida.

Com o advento do mundo digital, as inovações, mudanças e situações são muitos constantes, a cada momento surgem novas sonoridades ou algum novo velho som repaginado que vira o hit do momento. Assim foi há pouco tempo com o electro house, que foi usado e sugado até o seu limite e hoje é desprezado por muitos daqueles que beberam nessa fonte, mas no fim das contas o nome que se dê a alguma sonoridade é o que menos importa e sim o uso que fazem dela.

O som do momento hoje mudou, e mais uma vez vejo DJs (famosos ou não) correndo desesperados em outra direção ou mesmo sem saber para onde correr, pois a necessidade de sobrevivência seja humana ou artística o “obriga” a tomar tal atitude para continuar na luta pelo pequeno espaço disponível na vitrine.

Eu me pergunto, e acredito que alguns também, onde fica a arte nisso tudo? Pois para mim, honestamente não existe nada que diferencie um trabalho executado dessa forma de uma útil, porém mera jukebox, que tem seu conteúdo trocado de tempos em tempos em nome do momento e do que é novo.
Embora inevitável, e impossível de separar nos dias de hoje, arte e negócios, aka “dinheiro”, nunca conseguirão conviver em harmonia, pois em qualquer lado haverá o desapontamento por aquilo que não foi feito como era esperado.

Resta saber como o DJ de hoje quer ser reconhecido, se como profissional ou como artista.

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